I - Tema Principal (Parte 1)
é este o meu canto
de silêncio canoro
canção de espanto
o lar de cada poro
acústica que janto
urbe que deterioro
um covil de pranto
cuja chave devoro
II – Autorretratística (A Cara da Cidade)
meus olhos, Bela Vista
meu nariz, Edifício Copan
minhas costas, Av. Paulista
minha barba, Instituto Butantan
meus ombros, Carandiru
meu queixo, Horto Florestal
minhas bochechas, Pacaembu
minha testa, Memorial
meus cabelos, Ibirapuera
meu pescoço, Minhocão
minhas orelhas, Itaquera
minha boca, Consolação
III - Marginalidade (Tietê)
imagine o que entra
e imagine o que sai
marginal quem vem
e marginal quem vai
Bandeiras, Vila Guilherme e Freguesia
Milton Tavares, Anhanguera e Bandeirantes
Presidente Dutra, Aricanduva e Vila Maria
Tatuapé, Júlio Mesquita, Casa Verde e Limão
Nova Fepasa, Piqueri e Nordestinos Imigrantes
Remédios, Cruzeiro do Sul e Cebolão
percorro per capita
ritmo logo capoto
esquerda e direita
passo e nada noto
veloz cidade da Penha à Lapa
Parque São Jorge e Canindé
nada ao lado do rio me escapa
Sambódromo e Campo de Marte
sobre o asfalto sem marcha à ré
rodoviária é em toda parte
tudo o que via me expressa
rodo tudo e adoro a rodovia
vamos nessa!
IV - Mário de Andrade
São Paulo não é uma cidade
é uma infundada idéia
morro de saudade
reinventada paulicéia
obrigado Mário de Andrade
V - Canção Paulo
cidade acolhedora (hoteleira)
ela é sete capitais (logo peca)
beijo de língua (estrangeira)
33 mil táxis (é 25 de janeiro)
rua atravessada (na garganta)
filme de Sganzerla (sem roteiro)
Garoa’s Place (se você fosse)
e a lua também (se levanta)
café preto (duplo, bem doce)
ficarei no metrô (Vergueiro)
aí te leio toda (na biblioteca)
e nunca mais me fui (solteiro)
VI - Tema das Baratas
gregária, cascuda, voadora
para cada barata vista há uma colônia escondida
é assustadora...
intimida, intimida, intimida!
forte, rápida, lutadora
ela leva dez chineladas e sempre ressuscita
é perturbadora...
infinita, infinita, infinita!
suja, feia, constrangedora
não há um grupo que seja mais cosmopolita
é conservadora...
irrita, irita, irrita!
perversa, tarada, pecadora
em cada vez até cinquenta ovos ela deposita
é reprodutora...
maldita, maldita, maldita!
pobre, odiada, sofredora
fica tres dias sem água e dois meses sem comida
é trabalhadora...
inseticida, inseticida, inseticida!
VII - Fones de Olvido
Andando quando há esmo
Onde vou longe vasculho
Outro lugar, eu mesmo
Volto só som, barulho
Tão bom, tombão
Em tempo não coagulo
Relevante o que vão
Esqueço-me menos nulo
Revalidado, fora do chão
Escuto o que deambulo
VIII - Íman Ente
existe, é infinito interior,
substância, apesar de diverso,
paraíso mesmo, é o último
um do outro destoam
atraem-se e se atraiçoam
uno no outro entoam
persiste, é depois anterior,
distância, ainda que disperso,
inferno a esmo, é o próximo
IX - Tema da Mendicância
território existencial
errância, indigência
desajuste social
ou sobrevivência
uma praga urbana que nasce e cresce
na baixada do Glicério se reproduz
no Mercadão vive e sempre aparece
também dá na Luz
na rua da amargura
esquecido, mijado
vítima da loucura
ou aleijado
procura um albergue no fim do dia
homem do saco ao relento chinga
ao redor da fogueira na noite fria
roda de pinga
do caixote faz seu lar
excluído, descartável
cidadão por reciclar
ou matável
inseparável da carroça e do vira-lata
mora numa maloca sob o Minhocão
no Parque Dom Pedro busca sucata
catador de papelão
sem endereço se situa
sem-teto, sem-abrigo
morador de rua
ou mendigo
X - Paralelétricas
vou na velocidade
e tu no sentido contrário
do que eu ia
paro com a cidade
de que ainda sou usuário
caído na via
XI - 011
o telefone e eu em discordância
mas ligo pra Sampa muito afim
a chamada é de longa distância
mas Sampa nunca liga pra mim
XII - Paranóia Flamboyant
temo tudo ao meu redor
dentro embora ande fora de mim
esta via vai de mal a pior
até que vazia a cidade não é ruim
nós temos fobia
pois o caos é orgânico
com medo da maioria
sentimos pânico
paro meu carro blindado
e crianças se aproximam
sem sapatos, com fome
imploram algum trocado
com desacato, sem nome
nossos medos não rimam
XIII - MneMônica
recorda da garoa
recordada
dada dada
garota retardada
XIV - Entre (Espaço de Interlúdico Tempo)
aqui dentro
o meio com que se usa a cidade não se herda
a periferia ao redor
no meio da cidade tinha uma merda
a partir do centro
o meio como a cidade nos usa e logo deserda
ânus de suor
XV - Columba livia
outro céu rasante
em casas & arquidioceses
poluição flagrante
um pombal sem cuidados
pro alto & avante
eis os pombos favelados
eis um pombo imigrante
pacífico & odiado
um só nunca é o bastante
pânicos nublados
em vôo de cinza & fezes
neo-ratos alados
XVI - Escherescas
um passeio de mulher
insuportável querer à vontade
abro seu fecho ecláir
pelas ruas nossa necessidade
aflora seu bemmequer
que eu motelo pela libeldade
a minha metamorfamante
dama que como do inimigo
agora no quarto minguante
trama de crime e castigo
contra o que for pavor, sorte tua
demora, eu sei, boate virar boda
e por favor, não volte da lua
agora que amei-a-noite toda
XVII - Um Silêncio Diminuto
...
XVIII - Cantar Eira
vivo perto do Horto Florestal
logo atrás delírios para o chá
adentra a serra no natural
tomo um pico no Jaraguá
é o paraíso terrestre
ou coisa que o valha
acho me perder tão silvestre
onça que parda mas não falha
XIX - Canibalada
ela dança, eu a alcanço, ela dá esperança,
eu aí avanço, ela se cansa, eu danço
com aquela ali sozinha eu acho que combino
pois chego perto com um passo igual ao dela
que logo se aproxima de um outro dançarino
cujos passos imita e me parece até mais bela
eu deambulo, ela só pula,
eu gesticulo, ela estimula,
e eu adulo, ela calcula,
eu me anulo, ela circula,
eu só pulo, ela copula
a bela gira sobre si sem me notar eu imagino
quero chamar atenção enquanto se descabela
quando a música pára meu olhar é de cretino
mas me topa para a balada que a toca singela
ela sacode, eu a saúdo, ela no pagode,
eu no menudo, ela explode, eu mudo
XX - Instrumental (Em outras palavras, eu me toco)
1llI[l!1][iI1ll1[]]!I1II
]Ii![1Illli[[1I]IiIl!]1liI1]![
i1[lI]1!I[1]i!1[Il]ll]1i
llI]1i!1l]iII][1I!ii1ll!![Ii1
XXI - Sexo Analgésico
largo o meu sexo
como o de Mário
no Paiçandu
vou de complexo
volto ferroviário
tomo no cu
XXII - Tumúltuo
estamos cheios
não há mais vagas
não temos meios
por que estás contra mim, não me esmagas?
dois espaços não ocupam o mesmo lugar no corpo
não temo teus tateios
debulhe-me que te escarno
bacanas nossos cambaleios
com fusão me desencarno
seguro em teus seios
dois corpos não ocupam o mesmo lugar no tempo
humanas pragas
são os planos alheios
encruzilhadas aziagas
lugares comuns indisponíveis, pois lotei-os!
XXIII - Esquinas
entre duas esquinas solitárias
a arquitetura daquele prédio
o baço amarelo de luminárias
e sessão das quatro por tédio
livros de sebos empoeirados
uma cara de pau no espelho
conversa e cigarros rimados
a pipoca e o olho vermelho
passeio na galeria do rock
nos bolsos o desemprego
aforismos de pára-choque
sabor de churrasco grego
par de tênis no fio do poste
ando em nuvens por clichês
viciado não é porque goste
outra madrugada no xadrez
XXIV - Tema Municipal
da Santa Efigênia
ao Parque da Luz
da Estação Armênia
ao Metrô Santa Cruz
Municipal o mercado
Municipal o teatro
municipal enquadrado
municipal três por quatro
da Praça da Sé
ao Largo do Paiçandu
do Largo do Café
ao Vale do Anhangabaú
Municipal o mercado
Municipal o teatro
municipal enquadrado
municipal três por quatro
XXV - Pessoal Intransferível
quando saio com Aninha
bebemos loucos no bilhar
não serve um cineminha
nosso papo pede Godard
encontro Pablo e Mirella
sem espaço na lambreta
e eu sempre seguro vela
por isso nunca fico careta
marco com Lelê e Mariana
e nos acabamos de comer
rodízio ou comida italiana
e só comemos por prazer
visito o Tchê e Patrícia
e caminhamos pelo centro
da nossa cidade fictícia
reinventada noite adentro
revejo Renata e Titi Boy
já faz tempo que não os via
dou tanta risada que dói
falamos muito de putaria
esbarro com Rubão e Zé
sentados em algum bar
drogas pesadas e cabaré
levamos a vida devagar
e do nada me aparece o Lima
com histórias da carochinha
e cada razão que me aproxima
da louca tribo que é a minha
XXVI - Caipirinha Appreciation Society
um copo de aguardente
com açúcar, gelo e limão.
só falta um ingrediente
antes do pileque, o pilão
XXVII - Paulistália
meia mussarela
meia calabresa
meio banguela
meio burguesa
meio nobreza
meio favela
meia calabresa
meia mussarela
XXVIII - O Bueiro
boca-de-lobo
vírgula da sarjeta
poro do globo
urbana ampulheta
cloaca de tudo
porta do inferno
cu do chifrudo
hades moderno
poço de excremento
avesso escorregadio
berço do fedorento
veia aberta no baldio
outro lado nojento
hífen de um meio-fio
XXIX - Samba Atmosférico
nau paulistânia, iê iê iê
na insensatez sempre à deriva
pêlo pentelho do Tietê
não há podridão mais lasciva
somos soma eu e você
universinhos do Roberto Piva
o teu côncavo o meu convexo
punk carniça, ai ai ai
tudo soa por demais complexo
paulistanos, imaginai
sexo sem arte, arte sem sexo?
arte sã o pau Lo-fi
XXX - Flores de Néon
letras gasosas, palavras gozosas
espelho no teto e banheira com hidro
cores horrorosas que pinto no reto
nervos de vidro, doenças gostosas
cama redonda, quadratura hedionda
mulheres nervosas, Fedras preciosas
XXXI - Aqui
eu & vice versa
altitude submersa
inconcretude da cidade
interditada Liberdade
desci mesma paródia
novíssima rapsódia
mulata de olhos azuis
bumba-meu-blues
XXXII - Terminal
- próxima estação:
Baldeação!
atrás da curva,
a do esse;
noite turva
adoece...
- próxima estação:
Baldeação!
todos os pontos engodos,
não se pode ir mais além;
solicitamos a todos
que desembarquem!
XXXIII - MneMônica (Reprise)
recorda da garoa
recordada
dada dada
garota retardada
XXIV - Tema Principal (Parte 2)
musicidade e tanto
tempo que escoro
arranjo de amianto
eco que incorporo
polifônico, garanto
o labirinto sonoro
coral de esperanto
onde, ruído, moro
XXXV - Coda
ó meus paulistanos
agora conterrâneos
aqui contemporâneos
nós fomos subumanos
seremos metropolitanos
somamo-nos subterrâneos