Segunda-feira, Novembro 30

OverturEnd


No principício
O que começa logo acaba
Não é circuloso mas é vício
Macabracadabra

A homeostase precoce tão tediosa
Será algo que qualquer vate cogita
Prognosticar não é coisa venturosa
Akasha de Pan dor avante mal dita
O nosso universo está em expansão
Memória elástica que não se evita
Terminará numa grande mastigação

Espetáculo sem chance de bis
Mundanamo-nos assim
Apocalipsis literis
Esta é uma introdução ao fim

Terça-feira, Novembro 24

O-dia-domo-nó-logo



A porta me pedia:
- Toque, toque, toque...
Quando dei por mim,
fui me tocar dos Doors:
- E é e é e é...
Falava comigo mesmo
então me liguei
que tocava o telefone:
- Ringue, ringue, ringue...
Relutei a me bater comigo,
mas enfim apanhei:
- Quem é? Quem é? Quem é?
- Tu, tu, tu...

Sexta-feira, Novembro 13

Biscatismos (Dandy Lesson nº 1)


modi operandi: de diletante
um satanista não praticante


o cigarro bogarteando na boca
e anéis, mesmo que de fumaça


um fogo na roupa, e a alma está nua
uma água na carne, o corpo pra rua


um amor de verdade ou comida que encarde
uma flor de maldade ou a mordida que arde


não creio em coincidências
mas creio em reincidências


e com exceção das peças eu não me engano
preferindo tudo o que não é shakespeariano


com todas aquelas páginas que já li
convertidas em boquetes que recebi


uma coreografia dos dias
que improvisa-se à noite


à vontade a vida é feia
de verdade mas amei-a

Segunda-feira, Novembro 2

Azeviche



Perto demais, desde o canto atrás de mim, filosofal,
que mira-me em rima, sem fim, o em-aberto, trivial.
Rudes olhos de luz, daqueles que se jogam sobre a gente,
                                                             sem pestanejar,
vão dar ali no mais fundo, sob toneladas de sono bissexto,
por entre o sutílimo índigo de certas notas, ecos a se tocar,
através de um fogo abocanhado, antes de tudo, se quente,
                                                              como pretexto.
E, penúltima penumbra, é sombra de sobra,
como em dois dedos de café, demais de forte,
              dos de se cortar usando o machado,
tal espírito comprido que se cumpre na cobra,
             por ser como é cada sonho, perdido,
ora lembrado e ora esquecido,
um cisne negro, verso de balé,
poema negro, passo de morte,
ainda memória e já era, vulgo líquido e certo.
Tom de mau rumor que ao olvido escuta,
em entonação tatuada, tom enxadrístico,
eu me lembro, mas destarte ainda checo,
é um húmus muso, pois finda novembro,
ultra-sumo de limão e enfático em fatias,
ardente de arte, artístico, quase que nada,
doente, qual russo ou pior, talvez tcheco,
o ar tísico, roído de inspiração, há flauta,
tusso, rastejante sobre pauta embolorada,
e a lesma medirá ao dó ardido em males,
entonação pra ser sem partitura, fúngica,
     a mofar-se lentamente,
     prazer em parte escura,
     a formar-se de repente, demiúrgica.
Ou enterram na carne, encarnados, por terra,
na escuridão da estética, pois há mais depois,
se odiai amantes,
eternos, nós dois,
poética que se encerra, iniciantes, esqueletos,
cem quaisquer porquês, sem centro,
eu, vosso trevoso, trovejo em vocês,
e por perto sempre uns livros pretos,
pretos por dentro.
 
 

TELETON


No último sábado, dia 24, participei ao vivo do Teleton, transmitido pelo SBT. Passei um casalzinho de horas a blogar e tuitar na televisão. Pode? Compilo abaixo o que bostei durante o evento:

Fiz a barba e escolhi a roupa. Minha participação deve ser inexpressiva, mas... nunca se sabe. Pelo que vi no Teleton ontem os blogueiros não tem quase nenhuma visibilidade. Acho que isso representa alguns milhões a menos de pessoas. But now I’m dressed to commit a social suicide! Porra... o motorista já chegou! #partiu! 

 









Estarei on line. Fotografo e posto caso veja algo legal. Minha participação é hoje das 19h30 às 21h30. Assistam! No fim das contas acho que não vai fazer muita diferença. A não ser que eu apronte das minhas ao vivo e vire hit do YouTube. Haahahah! Vou dizer por lá que também uso prótese. Peniana. E mesmo assim sou feliz. Brincadeira. Que podre, isso... Bem, vai começar. Evohé!

Estou no Teleton!!! Faltam 30 segundos... E o poeta está ao vivo. TVS... Plim! plim!



Que galera animada... sério! Saiu o Celso Portiolli (Silvio Santos Jr) e o Daniel (garoto da porteira) ficou apresentando. Estou maquiado, alimentado, briefado e pronto pra meter o twitt! Não mexe comigo agora que estou empoderado... 

Daqui a pouco vem o Ronnie Von. Mãe... morra de inveja! Comercial. Estamos de volta. Minha namorada pede pra eu pedir pro Ronnie Von cantar "Viva o Chopp Escuro"! 

Vi que apareci de relance. Pra quem não viu estou bem no centro da bancada. Por enquanto no papel de cenário. O Ronnie me mandou um beijo e deu tchauzinho... ovulei... 

Será que dá tempo de jogar Máfia Wars em rede nacional? Nunca bati tantas palmas na vida. Por e-mail me pedem que bata no Liminha. Mais alguém quer pedir algo? Esse mascote da empresa que acabou de fazer uma doação é um bobão... O Ronnie posou pra eu fotografar. Chamei de gostoso pra ele se empolgar. 

O Liminha parece um clown de rodeio (escrevi clown por não achar o cedilha no laptop). Agora, falando sério... vocês já doaram? Doem, se puderem. Não dói. Agora uma palavra dos patrocinadores. O Pequeno Príncipe é mesmo ótimo. Uma simpatia. Aí está a pior versão do Maurício Mattar. Eu não sabia: ele "canta"? Quis dizer “dubla o playback da versão em brasileiro do Sanz”. Todo de branco parece um pai de santo, alguém comenta via Twitter. A cara dele rebolando é foda. A bunda dele encarando é meda. Ai! O pior mesmo foi o discurso do galã: “a corrupção, a violência, a poluição, não têm mais jeito da gente mudar.” No hope? O que fazer?  Se mattar? Não, não. Hoje é dia de paz e o cara veio de branco até. Ai, ai. 


Putz, acho que vi. É. Eu vi a Hebe. Posso garantir... não é cenográfica. Ela no palco com os “bonitões”. Vai rolar uma suruba. Sério. Daqui dá pra sentir. O bom (ou o ruim) de ver TV assim por dentro é que tem cheiro. Agora a boneca americana em tamanho natural. Coitada da Barbie. Tão bonita, mas sem mamilo e xoxota... Reclames, reclames! A plaqueira aqui tem de ser octópode. É uma loucura. A Hebe é foda. Não rola aviso de aplauso fake. Ela empolga demais a turba. Aqui é gelado paca. Abaixo de zero. Aí vem o Justus! Hahahaha. 


Caraca, eu vi a Super Nanny! Justus, dá 100 mil pra mim também... Quem será a vítima da Hebe? Será que ela vai pegar todos? O ibope vai no último. O Justus sua muito; quando está fora das câmeras passa o tempo se enxugando. Aí vem a véia. Selinho aqui não cola. Beijei a mão da Hebe! O Justus veio bem aqui, quase entrou no meu nariz. Olha... o MM é o mais disponível pros fãs. Está posando com várias crianças. Achei o cedilha. Calma mãe, não dá pra pedir autógrafo ainda. Talvez depois. Os internautas sugerem que o Justus me dê um selinho. Perguntam se a Hebe cheira a formol. Já vai acabar. Vão me mandar sair. Obrigado pela audiência. Abreijos textuais!


Já estou em casa, galera. Gostei bastante de participar. Foi foda. Tinha um buffet excelente, com Häagen-Dazs e Franz Café à vontade, entre outras guloseimas. Comi muita besteira. Peguei autógrafos de Roberto Justus e Ronnie Von pra minha mãe. Espero que ela retribua a gentileza caprichando no meu aniversário. Depois tirei fotos com a Hebe. Ao todo vi uma centena de "celebridades", sem o menor interesse pra mim. Saí em tempo de não ver o Silvio Santos. Pena. Mas o melhor foi ter conversado com o Goulart de Andrade. Lembra dele? O cara que apresentava o Comando da Madrugada. Queria ter conhecido o Luís Ricardo, vulgo Bozo. Fica pra próxima. Consegui tirar fotos com o cenário do Bom Dia & CIA. Com aquele jogo do coelho e o mais clássico, Batalha Naval. Foi muito bom interagir com dezenas de outros blogueiros malucos, de diversos segmentos. Fiz contatos legais. As crianças cadeirantes faziam um puta congestionamento que ia da entrada do estúdio à do palco, mas sem stresses. Estavam se divertindo. Os estúdios são muito bem equipados. Um dia volto lá pra conhecer o jornalismo. Vi muita gente bonita, apesar da maioria ser bem fake. Tinha um lounge incrível onde rolavam coisas maneiras. Aproveitei bastante. Bem, galera. Por hoje chega de TV. Câmbio, desligo.


 

Segunda-feira, Outubro 19

Infância e Leitura


Ruth Rocha, autora de mais de 130 livros infantis, entre eles “Marcelo, Marmelo, Martelo”, que vendeu mais de 1 milhão de exemplares, diz que “O bom livro educa artisticamente, educa o caráter, estimula a busca do conhecimento, mas tudo isso pelo que ele tenha de mais artístico. Educar as crianças é cuidar do todo, não só da educação formal, mas também da sensibilidade, da criatividade, da formação do caráter e do gosto pela arte.”

Apesar de não haver uma idade determinada para um primeiro contato com os livros, já que cada um se desenvolve a amadurece de uma maneira diferente, até com um bebê é possível começar a investir num futuro leitor. É a fase pré-leitora. "Há vários tipos de livros de pano e de banho que podem integrar o grupo de brinquedos da criança desde que ela consegue pegar objetos. Além de associar o lúdico à leitura, o contato natural com o objeto livro já se constrói de maneira natural", explica a especialista em literatura infantil e juvenil pela UFRJ, Cristiane Madanêlo de Oliveira.

A descoberta da magia da leitura se dá numa fase em que a ligação entre pais e filhos ainda é muito grande. Por conta disso, o afetivo está intimamente envolvido com esse processo. Se o momento de leitura na infância se associa a momentos de prazer, forma-se uma relação positiva com os livros, que é o embrião de um adulto leitor. Compartilhar leituras é importante para que ler seja associado a um prazer e não a um dever. Muitas vezes, percebe-se que crianças imitam as atitudes dos pais, seja no desejo de passar batom ou de fazer a barba. O que rege essas atitudes é o desejo de participar do mundo. Se a rotina dos pais incluir a leitura, a criança perceberá como natural e bom o ato de ler. O interesse dos pais em conhecer e debater sobre os livros representa interesse por aquele mundo da criança. O fenômeno Harry Porter aproveitou esse viés ao criar uma propaganda que incitava até certa competição entre pais e filhos para saber quem iria ler primeiro o último lançamento da série, mesmo que ele tivesse mais de 300 páginas.

Além disso, qual é a criança que não é curiosa ou gosta de ouvir histórias? Contar histórias é um oficio antigo da humanidade, encontrado em todas as partes do mundo. O homem usa a palavra como instrumento mágico que produz bem-estar, prazer, satisfação, conhecimento. Os primeiros narradores de histórias oralmente transmitidas são os antepassados de todos os escritores.

Pais e professores da Educação Infantil e das séries iniciais são os responsáveis por criar os laços das crianças com a leitura, uma atividade prazerosa, uma forma de brincar com as palavras, de proporcionar uma rica fonte para a imaginação, que transporta a criança para mundos diferentes.

A leitura é expressão estética da vida através da palavra escrita e contribui significativamente para a formação da pessoa, influindo nas formas de se encarar a vida. A criança é imaginativa, exercita a realidade através da fantasia, mas também precisa de materiais exteriores – todas as formas de escrita – contos, fábulas, cantigas e poemas, para se constituir como pessoa.

As crianças, no dia-a-dia, entram em contato com as mais diferentes histórias, nos jornais, revistas, TV, cinema, computador. Todos são eventos de letramento. “Cobrar” leitura de uma criança é um erro bem fácil de se cometer. Crianças gostam de leituras que lhes proporcionem prazer. Mas, em contrapartida, que histórias e leituras nós poderíamos oferecer às crianças do século XXI? As crianças têm, na infância, o melhor tempo disponível para ouvir ou fazer uma leitura descompromissada, movidas apenas pela curiosidade, pelo prazer, pelo descobrimento. Nosso papel é o de oferecer, desde cedo, o contato com obras de qualidade, para que a criança tenha uma formação e um desenvolvimento mais completo, mais interessante.

Tamanha é a importância do hábito de leitura que Ziraldo, um dos mais conhecidos e aclamados escritores infantis do Brasil, afirma: "Ler é mais importante do que estudar".

Segunda-feira, Outubro 12

a língua

a minha língua é da boca pra fora
e como tudo o que é rápido vírgula
a língua também se levanta, demora
e quando ela se agiganta é maiúscula
que a mesma língua que se janta devora
pois toda língua é longa, dentro embora vernácula

e quando natural
a língua é bela
e rebelde e oral
e tudo mais que falamos dela:

língua de fora, gringa
língua que aflora, xinga
língua curvilínea, swinga
língua sanguínea, pinga
língua de fogo, vinga
língua de jogo, ginga

taumaturga
a língua que conjuga
é a língua que quis
demiurga
a língua que refuga
é a língua que fiz
dramaturga
a língua que subjuga
é a língua que diz

na sua própria língua
ela, língua, debate
cada língua a se debater na própria boca
uma língua deitada de prazer
sobre a língua que nos fala de um vate
ela entre ativa e passiva
é língua dentada de me dizer, boca à boca
o amor à língua, lasciva e rouca
falando agressiva, sublingual
pouca a pouca, da língua louca de te morder
tudo o que não é oral
ou babel barroca

a língua à solta
linguagem que ama
não míngua, açoita
língua e idioma
bem aqui, ali igual
linguajar predileto
a língua normal
língua e dialeto

a língua que veneno destila
a língua glândula, palavra, papila
língua gula a língua que engole
língua mole, sem nome
língua que se come
língua de fome

grave a língua, língua aguda
trave a língua: linguaruda
língua rude faz alarde
a língua ilude, estala e arde
mas não se cala

a língua da dança
é a língua que não se cansa
a língua da criança
é a língua que não se alcança

descubra a língua escarlate
o disparate da língua rubra
aconselha a língua carmim
o latim da língua vermelha
lambem a língua a estalar
e também a estar lá
a fala, o falo, a goela, o grelo

num canto beijam-na
e é supérflua a saliva
que racha líquida a chupar léguas
e se desejam-na iníqua, molhada e muscular
contígua à mandíbula, profícua no paladar
quase mordida de lira a ladrar
é inócuo calar a perpétua cantiga
linha contínua da arte antiga
que parte da língua


Terça-feira, Outubro 6

Apocalipsis Literis

conversam travessos sexos atravessados por travesseiros perplexos
e se esses cernes desconsoantes nos esfumaçam
temores hidropônicos baseados dentro do peito
as juras se perdem em personalidades giratórias
seja a desculpar esboços seja a esculpir bocejos
que os trovões estorvam depois que se apiedam
como o louco fio do lábio da lâmina humílima
cujos vultos não voltam pelas escadas cadentes
melhores no mínimo que os anônimos ânimos
dos incomunicáveis latifúndios do amor ermo
quando holocaustos inoculam libidos novas ali
na próxima posse que nos remoça ao recomeçar

do lodo lúdico pelo polígamo balé pleno de lobos
nos iludimos diluídos e plenos de telúrico exílio colidimos idílicos
sobre o usufruto frugal desde os dolorosos fluidos
dos cílios deliciosos sósias de uns ridículos líricos
ao ver nos dedos dez dós de noves devires verdes
que em vernáculo novo o inverno não nos devolve
e nem mesmo no mútuo nome nos amaldiçoamos
ou sob nosso sono brônzeo somos sombrios a sós
pois nos braços pornôs por força sobramos torpes
agredindo segredos grises graças a sagrados gozos
desse excesso jovem de ser desejo sem jejum hoje
a devoluta távola da volúpia livre de revolta e vôo
e um anoitecer excede a dose que até cedo é doce

em amar meros raros maremotos que erros roem
danações donas de nada se aproafundando a nado
em um minuto mil molhados minuetos maiores que o mar enorme
deterioram detritívoros ritos de raios estridentes
que adornam chamados e os chupam dos mapas
velhos viciando os viscerais vestidos de vermute
na mira das damas rameiras minadas de arame
a sangrar desgraciosas siglas em sigilos glaciais
do coito que nos toca a cuidar cada nota quieta
em enigmáticas imagens na cama gemia temas
babilônicos lidos no colo nulo dum lóbulo louco
cuja macabra boca encarna cabalas no bacanal
às vezes se já me servem nas antenas versejantes

mitos da hora motivados desde a horda primitiva
sempre presente sem pressa desse saber se sente
a respiração de rapina opinar inação na pira rara
semente não sendo somente cultuados por não sermos aculturados
e as tiranias térreas retém nas rédeas idéias retas
em acabar borrando o rabo embora à carbonara
na maligna boca pigmaleônica da boneca inflável
que a girar é guarnecida por hecatombes fellinas
emanadas lá pela cabeça que as lepras ronronam
pelas orlas de conjuntivite ou superávits tifóides
amestrados nomes dos mesmos meses sem dós
a provar temporais que no enigma que prevarica
sói sonhar com facas e fome e fogo e isso é sexy

e se agora só há egos nos enganos rogai pornôs
onde de onze sedes nos seus dezenove venenos
blefam febres reféns dos ferros que sofrem fés
invisíveis em si se és desses ou ao invés risível
e sem licença me silencia os cios em delícias se cílios lêem a si
pelo olfato de farol de repente pela pele afora
é viagem em vagina que geme a virgem genial
com meus germes mágicos na genitália gentil
os pecadilhos aos bocados doces escapam cedo
se cá nada há na tese dos sete pescados fluviais
em bar cada haver dez aguar da cama a dama
pois dela foge e funda a religião da ligeira gíria
e dai já socorro do jocoso dia cujo deus é aids

namoramos a madrugada a injetar vampirismos
na folha errada que qualquer letra julgou xadrez
por não amaldiçoar o sábado ferido de mais sol
desde a esquina amante por temer ser esquecida
onde xícaras de liquor pelos pêlos nos soletram
nossas biografias siamesas a coexistirem em literalidade escarlate
de ler os clássicos corrigindo fictícios outroras
onde um já não era ainda e o sempre nunca era
o que nos invade para fora do nada e algo além
do que estava escrito em ambos lados do chão
conjugado com um presente contínuo de grego
a pular discórdias palpitantes em palpite cordial
que está nos capturando dentro da casa em éle

imperícias explícitas ao largo de cada rua inútil
bem fodidas pela pirâmide de carne conversível
pois somos mais puros que a raça dos incêndios
com cor dando que amei a luz guia da tua mão
dadas as pequenas mortes de virgens até o teto
e por milênios abandonados dentro das roupas
de linho tinto descendo com algumas ostras fomes afrodionisíacas
e sóbrea mesa em decúbito um cacho de uivos
uma teia que emaranha a meia lua cheia de nós
até o décimo terceiro filho de um total de doze
não sem futurismos no banco de trás da cabeça
com aqueles que já amamos conosco a mando
de certo desmembramento que parte da gente

canibailando doble em um tango horizontal
desde o indelével idílio do dedilhado etílico
no centésimo degrau em que o líquido verve
foram cor rompidos pelo faro dos homens
menos nos mesmos nomes se somos a sós
cada ser se reserva dono do cárcere cercado
dos opus corpos que põem os ovos corvos
por perto cobram torpes brancos e pretos abraços pros torpores
dos lúdicos cúmulos derivados de ridículos
querendo meter o totem do que é ter o teto
por sobre a cama porém abre o caso a soma
dos púbis bípedes pedindo plus um bis de pé
que louco de sede e sono nosso deus é laico

que na gritaria assola no que a guitarra sola
e os sons são mais do que massacra a queda
de cada gota da cara e a cargo do gozo todo
em inumeráveis venéreos méritos verossímeis
desta caralhada que cada bocejo se emboceta
a machucar chumaços e chocalhos de chaves
tortas como o comum dos caminhos tártaros
que a pouca elipse sele demais o axioma boca
pelo sem fim adentro pias e retroadem pêlos enfim ad entropias
cujos jogos só por hoje supõem que possuem
algo a reclamar que o amor a maré quer mesclar
com deveres e cores recordáveis de verdade
já que a enxaqueca se encaixa porque fraqueja

versus surre alpe do olvido do teu amor real
que de ter esquecido não se detém quem és
pois lembra em braile os pós com que me lê
e te é sinal infinito mais versátil haver finais
graves na cegueira a ventar vesga as vezes
queira a vida saber a rosa e o berro a vírus
onde de onda o dado dono se dana ou nada
entregue um ungüento ao sangue de poente
que recebo hoje o bocejo com jeito de beco
e nos ninamos unidos mesmo nos unânimes domínios do medo
para o reencontro torre em troco o outrora
que o espectro celeste tropece e se estatele
e sete sopra o tempo se me morre a memória

a escuridão ri da clara fúria que um dia cura
o mistério de ter um esquema o rito histérico
em pianíssimas utopias nas pistas dos mapas
apesar de saber berrar o que sara se arrasa
e a luz azulada do luar alado é essa asa lazuli
em um abraço de tristes sombras por um triz
mais em cima nesse cinema no máximo morno
que o caos que sobe ao acaso só busque aço
convém iluminar com lâmina em um animal
sem desespero ou ardor a rodar se despede
se sangra sarças só de graça salival sobre o sacrilégio salgado
que coagula o prazer e reza para lá da razão
toda noite dotada de preto deita nódoa no teto

no interior para sempre presente por inteiro
por começar um pouco insana se encarniça
a alma mesma e se derrama de mala na mão
para preparar a caveira para o vôo sem pena
que com vau curva o palco e arvora o vácuo
que a tebana é até bacana mas não bate bem
mas apanha na palma da mãe quem manda
a deusa sem demorar devora o ramo de uva
e códigos já ata à trama e cogita ato trágico
mas a platéia é plana de pasmo e até atéia
então que não se entoem os metros novos
objeto que não obstante o teatro já abstrai tanto no trato do abjeto
que o horror da hora é um raro de um rock

mantido no erro semântico domando o romantismo
o limite mete o que te milita e teme o que me tilinta
que se cada um que fomos quase mofa a pouca queda
uma zanga cansada já se enjoa em vingança da cinza
e cheirará a charuto o chá de choro da rocha rachada
que oca dá no mesmo e nos ocasiona um dano a esmo
que não obstante obstinado de quente nos contenta
sendo ufano um socorro conosco cedo em dose final
porque por onde andam aqueles nós que possam ser
super-persuasivos se a sua voz silva você atrai e soa
e o tudo que escuto estou que esqueço e dou quieto
vale ler pela leva de papel que revela a pele palpável
observados os conhecidos nexos que a travessia provém de reflexos

Terça-feira, Setembro 29

Ars Amatoria

Aqui o amador semi-pensa
e uma vez seu gozo vencido, fuma
em lânguida convalescença.

Com a pequena morte se acostuma
no seu leito a rolar, no peito
o que não é gozado porra nenhuma.

Ele teve seu desejo satisfeito
e dorme na noite ilimitada, enorme
pelo cheiro de amor perfeito.

Até que um sonho ruim o informe
da densa aurora, já presença
para que novo tesão se transforme.

Terça-feira, Setembro 22

Ésse Pê


I - Tema Principal (Parte 1)

é este o meu canto
de silêncio canoro
canção de espanto

o lar de cada poro
acústica que janto
urbe que deterioro
um covil de pranto
cuja chave devoro

II – Autorretratística (A Cara da Cidade)

meus olhos, Bela Vista
meu nariz, Edifício Copan
minhas costas, Av. Paulista
minha barba, Instituto Butantan

meus ombros, Carandiru
meu queixo, Horto Florestal
minhas bochechas, Pacaembu
minha testa, Memorial

meus cabelos, Ibirapuera
meu pescoço, Minhocão
minhas orelhas, Itaquera
minha boca, Consolação

III - Marginalidade (Tietê)

imagine o que entra
e imagine o que sai
marginal quem vem
e marginal quem vai

Bandeiras, Vila Guilherme e Freguesia
Milton Tavares, Anhanguera e Bandeirantes
Presidente Dutra, Aricanduva e Vila Maria
Tatuapé, Júlio Mesquita, Casa Verde e Limão
Nova Fepasa, Piqueri e Nordestinos Imigrantes
Remédios, Cruzeiro do Sul e Cebolão

percorro per capita
ritmo logo capoto
esquerda e direita
passo e nada noto

veloz cidade da Penha à Lapa
Parque São Jorge e Canindé
nada ao lado do rio me escapa
Sambódromo e Campo de Marte
sobre o asfalto sem marcha à ré
rodoviária é em toda parte
tudo o que via me expressa
rodo tudo e adoro a rodovia
vamos nessa!

IV - Mário de Andrade

São Paulo não é uma cidade
é uma infundada idéia
morro de saudade
reinventada paulicéia
obrigado Mário de Andrade

V - Canção Paulo

cidade acolhedora (hoteleira)
ela é sete capitais (logo peca)
beijo de língua (estrangeira)

33 mil táxis (é 25 de janeiro)
rua atravessada (na garganta)
filme de Sganzerla (sem roteiro)

Garoa’s Place (se você fosse)
e a lua também (se levanta)
café preto (duplo, bem doce)

ficarei no metrô (Vergueiro)
aí te leio toda (na biblioteca)
e nunca mais me fui (solteiro)

VI - Tema das Baratas

gregária, cascuda, voadora
para cada barata vista há uma colônia escondida
é assustadora...
intimida, intimida, intimida!

forte, rápida, lutadora
ela leva dez chineladas e sempre ressuscita
é perturbadora...
infinita, infinita, infinita!

suja, feia, constrangedora
não há um grupo que seja mais cosmopolita
é conservadora...
irrita, irita, irrita!

perversa, tarada, pecadora
em cada vez até cinquenta ovos ela deposita
é reprodutora...
maldita, maldita, maldita!

pobre, odiada, sofredora
fica tres dias sem água e dois meses sem comida
é trabalhadora...
inseticida, inseticida, inseticida!

VII - Fones de Olvido

Andando quando há esmo
Onde vou longe vasculho
Outro lugar, eu mesmo
Volto só som, barulho

Tão bom, tombão
Em tempo não coagulo
Relevante o que vão
Esqueço-me menos nulo
Revalidado, fora do chão
Escuto o que deambulo

VIII - Íman Ente

existe, é infinito interior,
substância, apesar de diverso,
paraíso mesmo, é o último

um do outro destoam
atraem-se e se atraiçoam
uno no outro entoam

persiste, é depois anterior,
distância, ainda que disperso,
inferno a esmo, é o próximo

IX - Tema da Mendicância

território existencial
errância, indigência
desajuste social
ou sobrevivência

uma praga urbana que nasce e cresce
na baixada do Glicério se reproduz
no Mercadão vive e sempre aparece
também dá na Luz

na rua da amargura
esquecido, mijado
vítima da loucura
ou aleijado

procura um albergue no fim do dia
homem do saco ao relento chinga
ao redor da fogueira na noite fria
roda de pinga

do caixote faz seu lar
excluído, descartável
cidadão por reciclar
ou matável

inseparável da carroça e do vira-lata
mora numa maloca sob o Minhocão
no Parque Dom Pedro busca sucata
catador de papelão

sem endereço se situa
sem-teto, sem-abrigo
morador de rua
ou mendigo

X - Paralelétricas

vou na velocidade
e tu no sentido contrário
do que eu ia

paro com a cidade
de que ainda sou usuário
caído na via

XI - 011

o telefone e eu em discordância
mas ligo pra Sampa muito afim
a chamada é de longa distância
mas Sampa nunca liga pra mim

XII - Paranóia Flamboyant

temo tudo ao meu redor
dentro embora ande fora de mim
esta via vai de mal a pior
até que vazia a cidade não é ruim

nós temos fobia
pois o caos é orgânico
com medo da maioria
sentimos pânico

paro meu carro blindado
e crianças se aproximam
sem sapatos, com fome
imploram algum trocado
com desacato, sem nome
nossos medos não rimam

XIII - MneMônica

recorda da garoa
recordada
dada dada
garota retardada

XIV - Entre (Espaço de Interlúdico Tempo)

aqui dentro
o meio com que se usa a cidade não se herda
a periferia ao redor
no meio da cidade tinha uma merda
a partir do centro
o meio como a cidade nos usa e logo deserda
ânus de suor

XV - Columba livia

outro céu rasante
em casas & arquidioceses
poluição flagrante

um pombal sem cuidados
pro alto & avante
eis os pombos favelados

eis um pombo imigrante
pacífico & odiado
um só nunca é o bastante

pânicos nublados
em vôo de cinza & fezes
neo-ratos alados

XVI - Escherescas

um passeio de mulher
insuportável querer à vontade
abro seu fecho ecláir

pelas ruas nossa necessidade
aflora seu bemmequer
que eu motelo pela libeldade

a minha metamorfamante
dama que como do inimigo
agora no quarto minguante
trama de crime e castigo

contra o que for pavor, sorte tua
demora, eu sei, boate virar boda
e por favor, não volte da lua
agora que amei-a-noite toda

XVII - Um Silêncio Diminuto

...

XVIII - Cantar Eira

vivo perto do Horto Florestal
logo atrás delírios para o chá
adentra a serra no natural
tomo um pico no Jaraguá

é o paraíso terrestre
ou coisa que o valha
acho me perder tão silvestre
onça que parda mas não falha

XIX - Canibalada

ela dança, eu a alcanço, ela dá esperança,
eu aí avanço, ela se cansa, eu danço

com aquela ali sozinha eu acho que combino
pois chego perto com um passo igual ao dela
que logo se aproxima de um outro dançarino
cujos passos imita e me parece até mais bela

eu deambulo, ela só pula,
eu gesticulo, ela estimula,
e eu adulo, ela calcula,
eu me anulo, ela circula,
eu só pulo, ela copula

a bela gira sobre si sem me notar eu imagino
quero chamar atenção enquanto se descabela
quando a música pára meu olhar é de cretino
mas me topa para a balada que a toca singela

ela sacode, eu a saúdo, ela no pagode,
eu no menudo, ela explode, eu mudo

XX - Instrumental (Em outras palavras, eu me toco)

1llI[l!1][iI1ll1[]]!I1II
]Ii![1Illli[[1I]IiIl!]1liI1]![
i1[lI]1!I[1]i!1[Il]ll]1i
llI]1i!1l]iII][1I!ii1ll!![Ii1

XXI - Sexo Analgésico

largo o meu sexo
como o de Mário
no Paiçandu
vou de complexo
volto ferroviário
tomo no cu

XXII - Tumúltuo

estamos cheios
não há mais vagas
não temos meios
por que estás contra mim, não me esmagas?

dois espaços não ocupam o mesmo lugar no corpo

não temo teus tateios
debulhe-me que te escarno
bacanas nossos cambaleios
com fusão me desencarno
seguro em teus seios

dois corpos não ocupam o mesmo lugar no tempo

humanas pragas
são os planos alheios
encruzilhadas aziagas
lugares comuns indisponíveis, pois lotei-os!

XXIII - Esquinas

entre duas esquinas solitárias
a arquitetura daquele prédio
o baço amarelo de luminárias
e sessão das quatro por tédio

livros de sebos empoeirados
uma cara de pau no espelho
conversa e cigarros rimados
a pipoca e o olho vermelho

passeio na galeria do rock
nos bolsos o desemprego
aforismos de pára-choque
sabor de churrasco grego

par de tênis no fio do poste
ando em nuvens por clichês
viciado não é porque goste
outra madrugada no xadrez

XXIV - Tema Municipal

da Santa Efigênia
ao Parque da Luz
da Estação Armênia
ao Metrô Santa Cruz

Municipal o mercado
Municipal o teatro
municipal enquadrado
municipal três por quatro

da Praça da Sé
ao Largo do Paiçandu
do Largo do Café
ao Vale do Anhangabaú

Municipal o mercado
Municipal o teatro
municipal enquadrado
municipal três por quatro

XXV - Pessoal Intransferível

quando saio com Aninha
bebemos loucos no bilhar
não serve um cineminha
nosso papo pede Godard

encontro Pablo e Mirella
sem espaço na lambreta
e eu sempre seguro vela
por isso nunca fico careta

marco com Lelê e Mariana
e nos acabamos de comer
rodízio ou comida italiana
e só comemos por prazer

visito o Tchê e Patrícia
e caminhamos pelo centro
da nossa cidade fictícia
reinventada noite adentro

revejo Renata e Titi Boy
já faz tempo que não os via
dou tanta risada que dói
falamos muito de putaria

esbarro com Rubão e Zé
sentados em algum bar
drogas pesadas e cabaré
levamos a vida devagar

e do nada me aparece o Lima
com histórias da carochinha
e cada razão que me aproxima
da louca tribo que é a minha

XXVI - Caipirinha Appreciation Society

um copo de aguardente
com açúcar, gelo e limão.
só falta um ingrediente
antes do pileque, o pilão

XXVII - Paulistália

meia mussarela
meia calabresa
meio banguela
meio burguesa
meio nobreza
meio favela
meia calabresa
meia mussarela

XXVIII - O Bueiro

boca-de-lobo
vírgula da sarjeta
poro do globo
urbana ampulheta

cloaca de tudo
porta do inferno
cu do chifrudo
hades moderno

poço de excremento
avesso escorregadio
berço do fedorento

veia aberta no baldio
outro lado nojento
hífen de um meio-fio

XXIX - Samba Atmosférico

nau paulistânia, iê iê iê
na insensatez sempre à deriva
pêlo pentelho do Tietê
não há podridão mais lasciva
somos soma eu e você
universinhos do Roberto Piva

o teu côncavo o meu convexo
punk carniça, ai ai ai
tudo soa por demais complexo
paulistanos, imaginai
sexo sem arte, arte sem sexo?
arte sã o pau Lo-fi

XXX - Flores de Néon

letras gasosas, palavras gozosas
espelho no teto e banheira com hidro
cores horrorosas que pinto no reto
nervos de vidro, doenças gostosas
cama redonda, quadratura hedionda
mulheres nervosas, Fedras preciosas

XXXI - Aqui

eu & vice versa
altitude submersa

inconcretude da cidade
interditada Liberdade

desci mesma paródia
novíssima rapsódia

mulata de olhos azuis
bumba-meu-blues

XXXII - Terminal

- próxima estação:
Baldeação!

atrás da curva,
a do esse;
noite turva
adoece...

- próxima estação:
Baldeação!

todos os pontos engodos,
não se pode ir mais além;
solicitamos a todos
que desembarquem!

XXXIII - MneMônica (Reprise)

recorda da garoa
recordada
dada dada
garota retardada

XXIV - Tema Principal (Parte 2)

musicidade e tanto
tempo que escoro
arranjo de amianto
eco que incorporo
polifônico, garanto

o labirinto sonoro
coral de esperanto
onde, ruído, moro

XXXV - Coda

ó meus paulistanos
agora conterrâneos
aqui contemporâneos
nós fomos subumanos
seremos metropolitanos
somamo-nos subterrâneos

Terça-feira, Setembro 15

15 cigarros e um pensador (que fuma muito)

Durante a inspiração do 1º cigarro pensei que todas as portas deveriam ser arrancadas dos seus batentes e empilhadas numa imensa fogueira, poupando tão somente as dobradiças para que sirvam de recordação daquela triste e assustadora época; Durante a inspiração do 2º cigarro pensei em todas as lâmpadas do planeta que não seriam jamais acesas pelas vaginas das mulheres frígidas; Durante a inspiração do 3º cigarro pensei em todos os problemas que tive com as drogas que não pude encontrar, da necessidade de psicanálise à incompreensão da pintura moderna; Durante a inspiração do 4º cigarro pensei que um cego sempre descreve o que ouve e nunca o que houve; o que houve é cego, o que não ouve é surdo; Durante a inspiração do 5º cigarro pensei que Alberto Caieiro, Ricardo dos Reis e Álvaro de Campos não são a mesma pessoa mas ainda sim são o Pessoa mesmo; Durante a inspiração do 6º cigarro pensei no umbigo que Eva, a primeira dama, não teve, e no cabaço que Maria, a imaculada senhora, perdeu da forma mais profana e incestuosa possível durante o parto; Durante a inspiração do 7º cigarro pensei que se no passado os escoteiros tivessem se associado às bandeirantes atualmente viveríamos numa era de alegria e experiência e, quem sabe, que no futuro teríamos institucionalizada a anarquia; Durante a inspiração do 8º cigarro pensei que se critica um final feliz num filme de cinema mas não se abre mão dele na vida pessoal a despeito da Arte, só porque vemos um piolho nos outros e não vemos um escorpião sobre nós mesmos; Durante a inspiração do 9º cigarro pensei que reconhecer a impermanência de tudo é a certeza da perduração do todo, sobretudo no caso de Deus ter um sexo, dois ou três, não interessa, sendo piedoso cogitar sua divina e onipresente insatisfação; Durante a inspiração do 10º cigarro pensei na música como uma arquitetura em movimento e na dança como um terremoto ensaiado; Durante a inspiração do 11º cigarro pensei que mais excitante do que a amiga da minha mulher e do que a mulher do meu amigo é o meu amigo voyeur excitado com a visão dessas três mulheres comigo; Durante a inspiração do 12º cigarro pensei que o título impopular que tornaria uma peça de teatro mais popular, e pães no circo lota, é “Foda-se o dia das mães!”; Durante a inspiração do 13º cigarro pensei que o aborto espontaneamente induzido deveria ser legalizado e amplamente difundido, até mesmo nos casos em que o feto não passa de um ciclope anão, herbívoro e caolho; Durante a inspiração do 14º cigarro pensei no metafísico problema da causalidade já que não haveria Sócrates sem Platão, Jesus sem Paulo, Borges sem o Outro; nem antes nem depois, nem dantes nem virgílios; Durante a inspiração do 15º cigarro pensei na sordidez da condição humana que só é solidário no câncer, na Copa do Mundo de futebol e em se tratando, naturalmente, de linchamento.

(www.samilill.com)

Quarta-feira, Setembro 9

Isto Não É Um Magritte

a reprodução interdita
e a traição das imagens
memória e meditação
e imagens recorrentes
ora a rocha ora o castelo
ora a porta ora a janela
maçãs verdes e chapéus-coco

três condições humanas e/ou três impérios das luzes:
a liberação dos terapeutas
a descoberta da escala do fogo
a queda da vida como conhecemos

entre a vingança e a vitória estão
a grande família e a grande guerra
objetos ordinários em contextos inusuais

o amor desarmado
é uma perspectiva amorosa
dois pares de amantes
é o princípio do prazer

do lado de lá
a travessia difícil
o caminho do céu
um torso de mulher
e os filhos do homem
a procura da verdade e do absoluto

os caçadores da noite
jóqueis perdidos no espelho falso
os destroços das sombras
mão alegre e leitura defendida

o mês da colheita
a chave dos campos
plural é uma voz dos ares
duas vozes do sangue singulares
uma grande folha caída de várias árvores

clarividência não é óleo sobre tela
pois este é um poema de tinta sobre papel
de som pelo ar ou de pixels sobre vídeo
ou isto não é uma poema

Sexta-feira, Setembro 4

Epigrafepitáfio

Nunca se matou
Nunca é enterrado
que Nunca possa encontrar a Paz

de Onde vim?
para Onde vou?
não sei, Quando não me sai da cabeça
quero ir para Sempre

que me perece tudo parecido
e se os poetas morrem de Poesia
é porque não há rima para Sempre

Domingo, Agosto 30

Subentendidos


Living is easy with eyes closed

Misunderstanding all you see
It's getting hard to be someone
But it all works out
It doesn't matter much to me
Lennon / McCartney

O cara pára ao meu lado na primeira esquina, na saída do cinema. Espero o farol de pedestres abrir para atravessar a rua, ao lado da namorada, de mãos dadas. Estamos fumando e carrego uma sacola com um bom vinho. Nem estamos tão bem vestidos assim. São 23h30. Ele nem está tão mal vestido assim. Mas está bem ao meu lado, perto, temos a mesma altura, talvez a mesma idade. Ele fala comigo, mas mal consigo distinguir o que diz, não porque não saiba falar ou porque esteja bêbado, não é o caso; aparentemente, pronuncia mal a frase por certo constrangimento, talvez constrangido por me constranger. Ambos entendemos:

- Você ...dinheiro... comer? (eu penso: "comer", um eufemismo para "beber") - E faço aquela cara.
- Não tenho. (ele pensa: "não tenho", um eufemismo para "não quero te dar") - E faz aquela cara.
- Por favor, abra o coração... (eu penso: "coração", um eufemismo para "carteira") - E fazemos uma cara.
- Estou mesmo sem! (eufemismo para "estou me sentindo ameaçado, vá tomar no cu ou chamo a polícia") - E ele entende.
- Deus te abençoe... (eufemismo para "vá para o inferno, eu podia te roubar seu burguesinho de merda") - E eu entendo.

Aí caminho até a próxima esquina, comentando esses eufemismos com a namorada. É foda isso e é foda aquilo. Pensamos. Rimos. Ou rimos antes de pensar. E um outro cara, um cara de pau, tosco e inconveniente, nos pára e, se dirigindo também a mim, pede dinheiro para comer. Constranjo-o:

- Não, cara. Eu sei que é pra você gastar com pinga! (eufemismo para "vocês trabalham em equipe, porra?") - E acho que entendi.
- Então me dá um cigarro... (eufemismo para "pensa que vai se livrar de mim tão fácil?") - E eu dou. - Quem entende?

Quarta-feira, Agosto 19

Camila Says


com Camila
depois de dormir
precisamos de dois cafés
para o céu se abrir, cortina lilás
fumando igual chaminés
& o olhar cintila:
amor por trás

& além dos nossos gritos não há mais nada para ouvir
onde a música pára de existir (a cabeça is a mess)
quando penso nesta canção: Camila Says
& logo, o que cada beijo dela destila
é o velho orgasmo que prorrogo
pelo destino que é, aliás
esse meio dia fugaz
ou vespertino

& eu examino
Camila a me sorrir
& o divino de cada mão
a colorir as oito unhas dos pés
dados seus dedos mindinhos demais
com aquele cheiro de acetona em solução
sem problemas, colori-la é o meu jogo: em paz
mas conto até dez numa grande vontade de pegar fogo

ela me faz
a tarde tranqüila
& amanhece ao invés
com uma fome voraz, através
& arde o meu coração
mordido no pão
por Camila


Segunda-feira, Agosto 10

Corpo do Poema

A poesia é estar o poeta a ser o poema

Mais imperecível que estátua
em praça pública
nunca suja
nunca quebra
nunca enferruja
nem pombo caga em cima

Não há poesia em criar
é mais poético existir

O poeta precisa saber cozinhar
o poema que não sabe digerir

O poeta veste o poema
com a roupa que traz no corpo
por isso o vemos assim nu

O poeta escreve o poema
com a mesmíssima mão
que usa para limpar o cu

Sexta-feira, Agosto 7

Buscador de Palavra

O subcitado
É superversivo
Insanas sincréticas são
As sincrônicas éticas

A metafísica é e de ser há
Ora esse diminuto palavrão
Maior que Deus só o Google
Terrena a palavra irrelevante
A natureza morta que no papel
Morte será por natureza lapidar

Crê-se na liberdade de credo
Cresce um “credo” à fé
Omito o mito
Esfingédipo

Segunda-feira, Julho 27

Jornada Metafórica

Este lado do fim
O eterno itinerário
Exilado de mim
Que seguirei etário

Calado e sozinho
Movo-me a percorrer
E sondo o caminho
Perdido ao me mover

Antes que o horizonte entardeça
Esqueço meu passado de turista
Afasto o futuro da minha cabeça
E os olhos da cara vendo à vista
A temer que o espelho emurcheça
Outro decênio mais decadentista

Transa o passaporte
Entra pela fronteira
Passe de transporte
Fronte é estrangeira

De terror migratório
Que és capaz por mapa
Míngua o território
Mais país e escapa

Cruzo alguma África subrimbaudiana
Ao redor do poema sem ser diletante
Uma existência de Rimbaud suburbana
Atado à poesia qual o notável viajante
E meus erros me cruzam em caravana
A migrar visitados pelo sol escaldante
Cuja miragem se parece a uma savana
No meu postal com céu sem turbante

Despe-se a evasão
Não espera o destino
Que vá de expedição
Ou deste peregrino

Águas que freqüento
Lá onde os lugares
Fontes que agüento
Luzem em seus lares

Quando na hora um dia é a cada minuto
Segundo isto que me põe em movimento
Não é uma perda de tempo em absoluto
Tempo de perda a ventar meu alojamento
Areias nos meus olhos de vidro devoluto
Seguindo que se trata de desloucamento

Extra a escalada
Era à distância
Escala a estrada
Desta errância

Imagem de delírio
Passo de devaneio
Viagem de martírio
Devir em passeio

Domingo, Julho 19

Curriculum Vitae

Eu sei ler e escrever (e nisso sou destro)
Bem como falar e ouvir com três sentidos diferentes
Os outros dois não quis aprimorar mais, mas os três já valem por seis
Não toco nenhum instrumento, mas aprecio de ouvido
Assovio mal, mas com originalidade
Li uns cinco mil livros e escrevi uns dez (não dez mil)
Embora desafinado, sou capaz de cantar
Não sei arrotar, mas faço outros ruídos estranhos com a boca
Posso peidar bem alto para forçar alguém a rir
Às vezes consigo não rir sob cócegas
Fico mais de um minuto sem respirar
Sei bater palmas e quando fazê-lo
Não sei dançar, menos rock and roll
Sei andar, para frente e para trás; para frente também sei correr
Cambalhota igualmente eu dou para trás e para frente
Sei virar estrela, para um e outro lado, brilhantemente
Andar também faço à cavalo, burro
Nado na água e trepo em árvores, nessa ordem
Posso pular ou permanecer em pé em um só pé
Sei pular corda e andar de bicicleta com esmero
Sou bom motorista de carro, de moto tenho medo
Consigo atirar uma pedra beeeeem longe
Sei amarrar os cadarços dos tênis, mas um de cada vez
Não sei fazer aviãozinho, mas faço origâmi de passarinho
Sei tomar ônibus, metrô, trem e avião sozinho (pago passagem)
Sou bom em caça-palavras, palavras-cruzadas,
caça-cruzadas e cruza-caçadas
Jogo xadrez nível básico; jogo da velha, avançado (quando começo)
Sei jogar futebol, voleibol e basquetebol, mas acho muito quadrado
Faço flexão de braços, abdominais e polichinelos,
mesmo sendo tão cansativo
Faço-me desfazer do cigarro com apenas dois dos meus vinte dedos
Livro-me das piores sujeiras do nariz com indefectível discrição
Cruzo as pernas sem qualquer deselegância
e os braços com alguma empáfia
Sei combinar as cores das roupas, até com pressa,
se a luz estiver acesa
Educado, como com garfo e com faca e com colher,
com as mãos quando faltam (talheres ou educação)
Sou bem humorado, menos de manhã
Consigo ficar 48 horas sem dormir sem café
Sei ver hora no relógio analógico e diferenciar AM de PM no digital
Demoro para dormir, mas luz e som não me incomodam,
embora causem insônia
Sei como plantar feijão e maconha e saber o que é legal
Conheço a técnica de ferver e congelar água, além de derreter gelo
Tempero, refogo e frito, embora não saiba cozinhar
Aprendi a beber e fumar e até a achar isso gostoso
Como pouco, mas gosto muito; não como de tudo, mas até consigo
Sei beijar na boca, a língua aí inclusa (com ou sem bala)
Pisco os dois olhos independentemente ou os dois ao mesmo tempo
Pego na mão com carinho e dou aperto de mão com força
Deixei precocemente de ter de deter a ejaculação precoce
Conheço o kama sutra, mas uso bem só uma meia dúzia de posições
Aprendi a colocar e tirar preservativo, feminino ainda não
Posso gemer bonitinho e ter um orgasmo sem gritar
Sei masturbar, eu e ela, e fazer sexo oral (só nela)
Estalo pulsos e tornozelos,
vinte lugares nos dedos das mãos e dez nos dos pés
Não possuo deficiência física, mental ou cognitiva perceptível
Posso conseguir sempre um barbear perfeito e conter a hemorragia
Nunca tive alergias, doenças graves ou contraí hipocondria
Mijo antes de balançar, limpo a bunda sem ajuda
e depois dou descarga
Jamais tive prisão de ventre e, em caso de diarréia, há soro e saro
Tenho 28 dentes (de leite) que escovo toda hora,
pois leite também é refeição
Limpo minhas duas orelhas sempre que falta terra no jardim
Suporto bem o nojo de engolir sapos, ou de cuspir cobras e lagartos
Não tenho medo de altura mesmo que ela seja muito maior do que eu
Fiz três tatuagens indiscretas em locais discretos
(locais do meu corpo)
Em uma dezena de países, perdi-me para me poder achar, e voltei
Mantenho unhas de mãos e pés aparadas e sem chulé
(nas mãos é mais fácil)
Tenho dois jeitos falsos de sorrir,
com ou sem dentes amarelos aparecendo
Não costumo pegar gripe fácil, só se for de boa família
Sei ler bula de remédio com presteza,
mas confesso fazê-lo sem prazer
Não sou muito racista, xenófobo ou sexista; nem hipócrita tampouco
Até mesmo conheço por socorro de terceiros os primeiros socorros
Não sou violento nem insensível às feridas que causo a outrem
Aprendi a brigar na rua, dou até cabeçada e voadora
(não no mesmo golpe)
Tenho excelente cicatrização e diariamente sangro muito pouco
Escrevo com letra legível e bonita, eu acho
Tenho muito boa aparência, acha minha mãe
Converso bem em três idiomas (os meus inclusos)
Não sei digitar, mas faço-o com extrema rpdz
Conheço as quatro operações matemáticas e a calculadora
Mas também decorei a tabuada até a do 13, por sorte
Sei de cor minha data de nascimento e número do RG
(CPF estou treinando)
Não sei contar piada, mas conheço inúmeras ótimas
Conjugo verbos razoavelmente e uso os pronomes com correção
Domino as linguagens de caixas eletrônicos e aparelho de microondas
Exerço um controle remoto sobre televisores e aparelhos de som
Faço uso exímio de escadas rolantes, saca-rolhas e abridores de lata
Apenas nunca aprendi direito a usar lapiseira e contar silabas poéticas
Sou poeta, mas tenho disponibilidade para atuação em outras áreas

Segunda-feira, Julho 13

Credo Quia Absurdum Est

Aqui mera como lê prosa. Pelo ar passa borboleteando as orelhas o absurdo. Eu abambalhado mordia os dentes, mastigando a boca. Adrêgo ou adrede, doido e doído. Ai, ai, ai! Passa um centauro à cavalo. E uma revoada de pardos "ais" eu escuto cantar, oram de peito canoro. Passo por um busto cor de escorbuto; a fé singular de fezes. He, he, he! Sui generis os ratos suicidas leptospirados. Também não deixa de ser espantoso o engraxate de pés descalços e espantante o tórax bochechudo da mulher Baudelaire. Eis a penúltima versão da realidade. Gosto daqui mesmo sendo nacioniilista. O que eu preferiria numa hora como agora, ser imortal ou poder voar? Daí que sobrevôo os miserábles Chinaskis caídos na calçada. O ser humano não toma atitude, toma sol e toma pinga, toma no cu. Mucho mal hecho. Penso em vitupérios, infâmias, maledicências. Qualquer MERDA et coetera. Insano estou que soul. Se eu urinasse ao meu redor nem saberia por onde sair. Com a cabeça quebrada sou um poeta de gesso, evidente. Com a cabaça que brada, sou um pó! eta! de éter, ou vidente. Sim: vejo dentes, Dantes e dândis sobrevoando lençóis freáticos como se fossem peixes com asas. Deixo toda e qualquer imagem ativa planar por sobre o cérebro de vidro das plantas translúcidas que me carregam para o prado que brado com suspiros doces. Pastando entre a peste, presto atenção nas tranças amarelas que jogo de minha torre tórrida, ansiosa por romances pendurados que desfaçam os nós da mente. Vejo lábios lancinantes como lanças me furando o coração, até que desce por entre as minhas pernas uma camada de limbo para que se lamba ao fim da tarde! E me escondo atrás do andarilho estacionado entre as ausências da razão. Libélula, luas bolas e lulas belas pelo mar que sou! Grito o eco dentro da gruta grossa em forma de planeta plano, pois o verdadeiro ab surdo é o sem ti do mudo, frente ao pano sob estrelas recém nascidas. Num céu escuro de escondidos.
co-escrito com Carole Colore

Quinta-feira, Julho 9

versozinhos

a vida cansada chega e se senta
envergada pelo vento frio do sul
quando a música fica mais lenta
nasce de nós uma florzinha azul

há tanto tempo eu não chorava
desperdicei o último ano relendo
e onde é mesmo que eu estava
acho que sei o que estou fazendo

este filme acaba e as luzes se acendem
sinto nas costas as experiências do dia
o que ora escrevo as pessoas entendem
assim não vou mais brincar de poesia

alguém teria uma aspirina por favor
vou deitar na maior cama que existe
telefone que não toca é o meu amor
e não por acaso este poema é triste

Domingo, Julho 5

Texto Sentido


troco muletas literárias por literais amputações
a perna de Rimbaud por andar em países distantes
alguma nova terra à vista pelo olho de Camões
insanidade a penas tangível pela mão de Cervantes

algum membro fantasma que tu me forjes
será todo o espectro de Jorge Luis Borges
na projeção fantasmal do que te sobrevoa
espirituoso corpo de um Fernando Pessoa

sempre escrevivi da minha tristeza
aquela que mea ssina
nunca dominei a língua portuguesa
ela é que me domina

por uma questão de consistência
por uma resposta de consciência
coração mole, cabeça dura
tanto bate até que loucura

o moribundo que gritou “eu” no cu da história
entre meus cinco nonsenses & parapsicologia
o vagabundo que ouviu “cu” no eu da memória
entre mil e uma notas de rodapé & parapoesia

tudo o que pode ser compreendido
mas não pode ser explicado
é em meu poema duplicado
porque está no meu poema dividido

máscara sobre um espelho
espelho sob uma máscara
desço pela toca do coelho
e de chá tomo uma xícara

síndrome de Alice no País das Maravilhas
síndrome de Münchhausen ou de Stendhal
tudo menos as alheias cartilhas
mais razoável do que racional

sinto o escrevido
da fala à audição
ou ficção olfato
e tato com visão
do texto sentido

Terça-feira, Junho 30

Labirinteratura

este seu itinerário
será tão comprido
que o bibliotecário
já demasiado lido
imerso no cenário
estará lá perdido?

ele é o funcionário
que se acha sabido
com um ar literário
até mesmo exibido
mas um calendário
embaralha o olvido.

ele faz aniversário
parece rejuvenescido
sob o pó centenário
é um recém-nascido
será só temporário
ou terá sobrevivido?

é tão extraordinário
estar no lugar devido
que só no imaginário
terá por lá aparecido
e se acha no fichário
ou entrado ou saído.

o caminho arbitrário
revela o intrometido
e faz dele adversário
pelo monstro comido
ou herói involuntário
guiado e perseguido?

Sexta-feira, Junho 26

Não

Não me olhes assim... Eu não morrerei contigo e não envelhecerei ao teu lado. Nós não teremos netos, nem sequer filhos. Não vamos ter uma história juntos, sem apoio mútuo ou mesmo alguma compreensão. Por isso não haverá brigas. Nunca teremos uma única crise que seja. Jamais discutiremos a nossa relação. Logo, é impossível que haja traição e muito menos que enjoemos um do outro. Porque eu não te darei a mão, não andarei ao teu lado e não te guardarei do mal. É melhor para ti. Já será bom que não queiras querer-me bem, de nada vale. Não adianta, pois nunca serei teu e nunca serás minha. Definitivamente, não. Nós não seremos felizes juntos. É muito simples: eu não me casarei contigo. Assim também não seremos infelizes juntos. Tu não entrarás em minha vida. Esqueças completamente o noivado, mas antes dele todo o nosso longo namoro. Sem planos para o futuro. Sem futuro. Nada vamos compartilhar. Sem romance. Coisa alguma se consumará entre nós. Não faremos amor, e nem mesmo sexo. Nós não misturaremos os objetos pessoais que já não nos pertenceriam mais. Nenhuma data ou lugar será marcante, não teremos uma música, livro ou filme. Então não desenvolvas qualquer expectativa ou crie esperanças. É impossível. Não há qualquer ilusão. Nada em ti me inspira, enlouquece ou anima. Apenas. É que não começaremos nada. Não conhecerei teus amigos e amigas, teus pais. É inútil. Tu não me moves ou transportas, não sinto nada por ti. Isto é triste? Não há um só programa que faremos a dois. Não te lerei ou escreverei poemas. E eu não vou te beijar, nunca. É melhor que não esperes nem um abraço de mim. Não haverá atração, interesse ou flerte. Tudo sem aproximações, toques, posse. Longe dos olhos, e fora de alcance. Não há qualquer emoção. Então, nada digas. Não ligo para ti pois jamais pedi teu telefone. Não me apresento, e nem cogito. Diria-te “adeus” agora como se jamais me tivesses dito um dia qualquer “olá”. Não nos veremos uma segunda vez para não lamentarmos o fim daquilo tudo que podíamos e não quisemos iniciar porque nem mesmo houve este primeiro encontro. Eu fecharia teus olhos para que quando os abrisse eu já nem estivesse mais aqui, e seria mesmo como se eu nunca houvesse estado. Queres saber se terminamos? Não. Eu vou embora da tua vida e só termino contigo se algum dia voltarmos a nos encontrar.

Quarta-feira, Junho 24

ver: S.O.S.

“• • • — — — • • •”
Titanic

"dit dit dit dah dah dah dit dit dit"

Ser já será incerto
Oco de escondidos
Sempre em aberto

save our ship
salve ou sucumbo

Suponha um labirinto sem sentidos
Olvido não tem socorro eu te alerto
Saiba que ambos estamos perdidos

save our souls
salve ou sepulte

Sonho estar liberto
Oblívio de ruídos
Solitude por perto

"dit dit dit dah dah dah dit dit dit"

Domingo, Junho 21

Amor & Saudade

o amor com dentes de maçã
em nódoa de beijo mordido
a saudade como febre terçã
na lonjura do delírio ardido

são sóis espirais de veneno
em vertigem de olhar fatal
são fúrias de abismo pleno
na nostálgica verve do mal

quando há demasiado amor
não chegamos a ter saudade
ela é que nos tem ao dispor

quando é demais a saudade
não chegamos a fazer amor
ele é que nos faz à vontade

Sexta-feira, Junho 19

Iconolatria

para Robinson Machado
Depois da última pincelada, vislumbrei inédita e com cem inúteis precedentes uma cor dolorida numa dor colorida que não deixava de todo de me esboçar. Tomado de assalto pela abstração do projeto completo, fui artificial. Como me expressar melhor, senão prudentemente, através do que expressamente comunica-se sem intermediários com a minha sensibilidade? Fato é que minha atitude, assim mesmo, não se me afigurava passiva, já que a própria estranha cor fantástica participava da minha criatividade. Destacada do conjunto, ao centro dos semitons de relativa familiaridade ou relativa estranheza, o que dá no mesmo, a mesma sabia-me a si mesma um pigmento insuportável, emancipado do suporte; no que, enquanto o elemento fundamental, as outras cores no geral, aplicavam-se em fazer sentido, ela, com estudada naturalidade e simplesmente, se fazia sentir. Seria um quadro prestigiado porque prestidigitado? Sei que vai valer alguma coisa quando eu estiver grisalho, ou careca, ou morto. A morte é, como nunca e definitivamente, a mais inesperada das derrotas, embora a priori também seja tão efêmera e fugaz quanto nos parece a moda; já a vida, esta poética que a posteriori nos é erroneamente atribuída, constitui um completo e opulento triunfo, mesmo apesar de sempre parecer uma derrota. Eu posso ainda não ser o artista que gostaria, mas por assim dizer escrevo o que gostaria de ler; não sou um bom crítico, mas faço uma autocrítica.

O quadro inteiro ainda não era eu, dentro embora me expressasse para além de mim, para fora. Não chegando a constituir simulacro, emoldurava o indiscernível desde o próprio cerne misteriosamente óbvio, aos brados no que calava de mais profundo seu exterior, estando imerso no ser superficial. Realce que me imiscuía na tessitura mesma do relevo menos aparente, aparentado sobremaneira no aspecto, a pretender apenas sutilmente demonstrar-se. O inusitado é que me contrastava. Utilizando-se não somente da aquarela de experiências que as demais cores combinadas nos propõem, como sombras, calor ou frio, e profundidade; esta ia muito além, pois estava munida mesmo de autoconscientes e apaixonados argumentos ambiciosos, carregando inadvertidas lembranças e previsões, com seus mil e um vigorosos instintos e uma racionalidade monstruosa; mostrando-se igualmente impregnada de um irascível vigor metamorfo, conforme se recombinava parecendo onírica ou mutante a cada abotoar e desabotoar de meus olhos incrédulos, e mais... no durar de um mesmo olhar, parecia ir além de mim e de si mesma, dando mostras de que podia reconfigurar meus olhos e a própria luz. Apesar de tudo já se me configurar desde o princípio como uma improbabilidade, no que cheguei a propriamente duvidar que ela sequer existisse, ainda pude, contrariado, discernir mais além, constatando não apenas que a cor estava viva, mas que era o esboço sensorial de um deus pictórico. Observado de muito perto ou de muito longe, eu não me via, mas ele sim. Cuidado com a arte: é frágil! Roubada para enganar-te: é plágio! Nenhuma arte de verdade é tão autêntica como a falsa.

Difícil de apreender à primeira vista, mostrava-se, após uma exposição mais atenta, apenas como algo muito fácil de não se entender. A melhor das metáforas é uma certa anti-ironia, porque não diz uma coisa querendo não dizer outra. Não há diferença entre caricatura e alegoria. Foi um exercício meticuloso de acaso, um improviso calculado em cada erro seu completamente inesperado, ou mesmo um imprevisto ensaiado; por absurda absoluta coincidência, quis-me desde o início assim acidental. O mérito desse método de com nada mais se parecer era assim um pouco muito meu também, ao menos me parecia. O que nos mostra como algures, alhures se nos mostra. A tal cor quase não era, posto que pudesse ser, desde que não se deixasse que o fosse. Na arte, como em tudo o mais, não se faz uma omelete sem quebrar os ovos, mas é absolutamente desnecessário fazer a omelete, uma vez que já se tenha quebrado os ovos. Angustiava-me em cada pequenina aflição que me infligiam seus múltiplos pormenores, infringidos meus recatos recônditos fustigados pelo horror com que, vencido e conquistado, me apaixonei por aquilo, como quem se entrega ao colo da mãe, ao braço do pai, à boca do derradeiro amor. Antes mesmo de eu me atrever a cheirá-la, tocá-la ou lambê-la, escravizei por completo minha visão obediente àquela mancha plurincolor, como ela mesma se fazia cada vez mais e mais dependente de mim; ao ponto de ambos não sabermos mais se juntos éramos os mesmos ou outros diversos, se éramos ainda um pouco eu ou algo daquele ponto. Não como híbridos ou amálgamas, interpenetrávamos-nos amiúde como se o detalhe do quadro e o meu olho em detalhe fossem uma simbiose ímpar de desejo objetivo e objeto de desejo, para sempre fatal e irretroativamente mútuos. E a maior solidão que encarnávamos era a de sermos totais.

A representação do imaginado que vivi outra coisa não queria expressar, desperdiçando a si mesma ao me consumir as autorias atribuídas, simbolizando tudo e significando nada, além do que, vez e outra, o contrário mesmo não se nos fazia inverossímil, dadas as supostas inteligibilidades passivas de apreciação na revisão geral da obra em questão, sendo irrelevante saber se esta era figurativa ou abstrata, fato é que me parecia um auto-retrato pouco vaidoso de mim, embora eu mesmo estivesse muito vaidoso dele, de tê-lo feito. Sempre quis saber pintar a verdade nua, vestindo-a com arte; ou pintá-la vestida com arte tal que se sentisse nua. Qualquer outro pensamento seria ridículo, se não fosse ao menos divertido. É que todo poema é um poema dentro de todo poema. O fato é que cintilava maravilhas a tal cor, e desde o seu próprio ponto de vista muito pessoal piscava para mim; sabia mais sobre o seu autor do que ele mesmo podia compreendê-la. Em vista de quando perscrutava minha tênue existência a me olhar, punha-me nu e efêmero diante da voracidade com que me contemplava, notadamente assenhoreando-se de meu destino, comigo na mira. Tenho para mim que se apiedava. Em contraste com os indeléveis novos tons além e aquém de nós, particularmente no ponto de convergência em que o próprio eu observador dilui um tanto o onipotente borrão original, de repente displicente a pintura assina-se a si própria; assinalando-me com precisão numa auto-intervenção, a verter com verve sobre si a arte necessária de uma só lágrima, perfeita para borrar a expressão do artista a desaperfeiçoar sua obra-prima, em conformidade plena com o estilo desbotado com que eu mesmo sempre costumo me pintar.

Terça-feira, Junho 16

O Amor de Cabernet & Sauvignon

C: Corpo a corpo eu te bebo.
S: Copo a copo você me tinha.
C: Dá tua boca à boca cujo beijo recebo.
C & S: Lembra quando a gente vinha?

C: Engole o que falo sem desperdiçar.
S: Então somente a verdade fale-se.
C: Viemos beber ou conversar?
C & S: Cálice!

C: Vem me provar que ama.
S: Liquide a embriaguez que sinto.
C & S: Vamos nos tomar na cama.

C: Deito-te em mim, teor do que tilinto.
S: Altos agora, se te sirvo me derrama.
C & S: Um brinde ao amor que adivinho tinto.

Quarta-feira, Junho 10

Jardim do Idem

...No início era o tédio
e só por essa razão o primeiro ser foi criado,
e bastou um segundo para ficar entediado
e juntos eles se multiplicavam sem remédio,
com o que intercalavam longos períodos da mais absoluta inércia,
como era previsível,
com toda a paciência para discutir a relação ou outra controvérsia,
como era discutível.
Mas nenhum paraíso seria o bastante
e o pecado é muito pouco entediante,
mas também pecar já não era excitante
e assim se abandonaram à monotonia,
mas isso também podia ser degradante
e dessa forma inventaram a melancolia,
mas nem ela agüenta uma rotina vazia
e também de não fazer nada se entedia.
Todos experimentais; somos nossos venenos, todos loucos ideais,
todos doentes mentais, somos bobos serenos, todos quando normais,
todos nascem mortais, somos muito amenos, todos morrem iguais,
todos muito carnais, somos bem obscenos, todos quase canibais,
todos estranhos plenos, somos criaturas reais. Todos extraterrenos.
Todas as leis são iguais demais perante as pessoas
porque mil isonomias não contemplam diversidade,
porque ainda não acabou a nossa pós-modernidade
mesmo apesar dela jamais haver começado de fato,
porque isolado um flato não reflete ironia das boas
porque nem mesmo fede a significado de verdade
...pois eles não estão sós,
antes e durante e após,
pois eles são como nós...
a vida inteira sempre os mesmos em cada parte.
A vida apenas alheia que à nossa morte não compete.
A vida cujas próprias formas a contém sem arte.
A vida copia a si mesma como o verso que se repete.
E eu não sou igual a ninguém
e me pareço com algo que há
e ao final deverei dizer amém
e onde meu fim não começará
sendo que estou em toda parte afim dele?
E só para esse fim existi,
quando será ele?
Porque só existo para ti
ou qualquer outro que não me conheceu.
Quem afinal não sou eu?
Eu que me identifico só no irreconhecível,
eu que ando por onde e por quando quero,
eu que elejo apenas o que parece ilegível,
eu que pouco me atolo mas muito tolero,
eu que falo e escuto em língua nenhuma,
eu que não entendo nada e ainda escrevo,
que sou do tipo que bebe, do tipo que fuma,
que monto charadas, que conto segredos,
que conto nos dedos, que conto de fadas,
que não pago as dívidas como não devo,
que sou sem cor, que sou com graça,
que sou sem raça, que sou com amor,
que não nasci com a mesma história,
que não me ligo em qualquer religião,
que não esqueci nunca minha memória,
que não fui cultivado na mesma cultura,
que não deixo que castrem o meu tesão,
que não embarquei na mesma aventura
sou como aquilo tudo que sempre se passou no passado,
sou como isso ao meu redor inteiramente sem um lugar,
sou como todo o desnecessário vendido novo ou usado,
sou como o obsoleto absoluto em que é preciso acreditar
por não ter misericórdia como quem doa,
por não ter ganhado dinheiro o suficiente,
por não ter me tornado outro deficiente,
por não ter suado minha vontade à toa,
por não ter perdido sangue o suficiente,
por não ter ficado bonzinho numa boa,
por não ter escarrado meu espírito à toa,
por não ter a evolução me feito demente
com a sua liberdade de ir e vir com vistos e pedágios,
com a sua civilidade e cidadania de impostos em dia,
com a sua humana dignidade de trabalhos e estágios,
com a sua questão de saúde pública que me contagia
a vida que sabe à morte mais longa que se conhece.
A vida de um exterior que vice dentro embora vegete.
A vida pela qual a falta de fundamento transparece.
A vida copia a si mesma como o verso que se repete
só por ter estado evoluindo,
só por ter estado revoltando,
só por ter detestado,
só por ter estado engolindo,
só por ter estado vomitando,
só por ter Estado.
Só por ter qualquer Civilização Ocidental, maldita herança,
só por ter dito contra a vontade um hino que não compus,
só por ter confessado sob tortura o meu voto de confiança,
só por ter ejaculado de mim essa ferida moral, cheia de pus,
e apenas porque insisto em fazer a porra que me faz eu
e apenas porque insisto em fazer a merda que me faz eu
estou proibido do que tenho em mente,
estou restrito ao que não me apraz,
estou proibido daqui para frente,
estou restrito a daqui para trás
e sou obrigado a agradecer
e sou de nada a agradecer,
já que vivemos numa democracia,
já que esta é a ditadura da maioria,
porque não devo ser melhor do que ninguém
e porque não posso ser pior do que ninguém
só me resta ser exatamente como ninguém,
exatamente como qualquer um sobre a face desta terra de Deus,
exatamente o Um como qualquer deus sobre a terra desta face,
e no entanto todo o mesmo ainda continua
e no entanto continuo ainda o todo mesmo
e no entanto continua todo mesmo o ainda.
A vida que sente náuseas pela própria mesmice.
A vida é só um ato falho que a nossa sorte comete.
A vida de águas paradas da infância até a velhice.
A vida copia a si mesma como o verso que se repete
por um eterno retorno ao primeiro verbo do primeiro dia,
por um retorno eterno ao primeiro verso da primeira poesia,
por mais uma profana homília,
por mais um andar dos prédios, por mais um andar em círculos,
por mais circularem os tédios, por mais secular uns ridículos,
por mais uma Sagrada Família,
por mais um gole de petróleo, por mais um trago de fumaça,
a não poder carregar uma outra imagem,
a não poder andar com outros sapatos,
por menos um imbróglio, por menos uma arruaça,
a não poder me armar de coragem,
a não poder pagar por sonhos mais baratos,
mas tendo de decorar as mesmas ladainhas sem sentido,
mas tendo de ter as mesmas vitórias ao pé do ouvido,
sempre transmutando as mesmas poluições, poluções;
sempre transando as mesmas emoções, emulsões;
sempre transitando as mesmas intuições, instituições;
sempre transportando as mesmas noções, nações;
por ter comido da árvore da paciência
minha cara sua
por alguma comida,
por ambicionar comer da árvore da lida
minha vergonha nua
por subsistência,
porque se devora essa mitologia crua,
porque minha fome é a deles e a tua,
porque nossa história como que jejua
e cumprido está o plano inclinado da nossa descida;
e comprida é a profana escalada da nossa descendência.
Nesse caminho, linha reta, as coisas se repetem
nesse caminho, linha reta, as coisas não acontecem
nesse caminho, ponto a ponto, o nada não muda
nesse caminho, ponto a ponto, um nada nos saúda
enquanto as horas durarem um dia,
enquanto os dias passarem da hora,
enquanto nossa duração for tardia,
enquanto nossa tarde ainda vigora,
enquanto ainda existir um todavia,
enquanto nós aqui existimos agora
uma vida alienada
nada a se fazer
na água parada,
pró-fundo o lazer
com que morre afogada
e pára de se debater.
A vida gira em grosas em eterno equinócio.
A vida como uma volta ao lar que não se complete.
A vida que maquinalmente é movida a ócio.
A vida copia a si mesma como o verso que se repete.
Desde então nós convivemos com o abandono
pois não existe nada além da diversão que nos conforte,
desde que não contamos com a dor e a miséria e o sono,
pois queremos chegar inadvertidamente à morte:
um tempo que sabemos não ter começo;
uma época cujo meio é tudo o que sou;
um tempo com o outro lado do avesso;
uma época que afinal nunca se passou;
um tempo no qual eu ainda permaneço,
era reincidentemente sem fim
pois é lá do tédio que viemos,
é pois para lá que voltaremos,
era sem saída esse nosso jardim...

Sábado, Junho 6

Psiconauta

A realidade é aquilo que não some
quando já não se pensa mais nela.
Philip K. Dick

Experiência não é o que acontece a um homem;
é o que um homem faz com o que acontece a ele.
Aldous Huxley


Enteogênico trago o fumo
Navego e naufrago e me aprumo e apago
A natureza (marinha) da (minha) existência
Abro as comportas da percepção
Peresigo a sombra da minha respiração
Boca a boca, com que me dito a ação
Mas turba a ação, desde um caos maravilhoso
Alterando outra alteridade sem piedade
E se falo com Deus sou piedoso
E se fala Deus comigo sou louco
Atinjo o fundo, ou ele me atinge
Uso o espiritual, o recreacional
Pouco a pouco há pouco
Uso muito mais do que podia
Ora jejuo, ora me alimento
Tento hipnose e glossolalia
Enjôo mais do que não experimento
Tento uma projeção austral
Ou de cinema autoral, e sonho lúcido
Com os Estados Alterados da América
Pois o enfadonho não desabou
Psicotópica era velha a nova era
Tudo meu eu, meu eu nada, pratica borboleta
Desde Bertyoga em ondas cerebrais
Do homem almar, o Mar de Davis
Afogado em Antártica ou em Brahma
Qual zentropia que respiro sentado
Como uma flor de lótus apetitosa
Depravação sensorial de lírio, de rosa
Como cannabis como canibal
Tortura por cócegas, sessão de anedotas
E um ritual besta de culto ao capeta
Intersecção dos cus juntos com xoxotas
Intersucção de um mamilo ou caralho
Café velho com remédios tarja preta
Suspenso pelos piercings ou plus ultra
Lance de dados e mesas de baralho
Dances de lado que não me atrapalho
Realismo histérico e kharma sutra
Vaca atolada servida frita sem mugidos
Deficiência de vitaminas ou autoflagelação
Objetos geométricos brilhantes e coloridos
Sob as três vistas vesgas da observação
Árvores no céu da boca e do inferno
Divorciados da queda do ar
Pau d’água que dá frutos do mar
O ser e o não-ser moderno
Bestiário místico por domar
Auto-indulgência por doar
Eu devo estar acordando, me belisca
Cogumelo mágico, peiote e mescalina
Para fisgar ao peixe que pesca a isca
Sob um feixe de farol que me alucina
Monóxido de carbono e luz que pisca
Preto e branco, entre ambos os halos, sina
Tenho visões de mensagens sublunares
Ouço vozes que gaguejam, que praguejam
Que dementes mencionam mais dimensões
Em dose cavalares, revoluções interdisciplinares
Novas possessões, novíssimos círculos
Expandindo a mente com as ficções mais belas
E viajarei pelos sete bares, pelas verdades paralelas
Tomando tombos tão ridículos que não acredito
Gozando o que fico sabendo, sendo maldito
No que me cago e vomito lagartos elásticos
Seres fantásticos, memórias que apago
Lembranças que recupero, assim espero
Nessa chama que chamo xamânica
Que me torra a casca, serafim de ayahuasca
No vago redemoinho dessa linguagem oceânica
Bem consciente de estar submerso
E eis que do meu diário de bordo, transbordo
Como o homem que bebeu o universo

Quinta-feira, Junho 4

Existismo

porque se morre apenas uma vez
estou ansioso
e no entanto
não me suicido
pois só se vive igualmente uma

a vida é simultâneamente
longa e trágica
como alguma dor
e a morte ao mesmo tempo é
cômica e curta
tal qual um prazer

morrer ou viver
são formas demasiado inexatas
e simplesmente complexas
do meu próprio e alheio Eu
que hoje já não tenho preferências
tanto que quando de um dia e local
tão imprecisos quanto o livre-arbítrio
questionado de súbito pelo Nada
com o Todo atento a tomar nota
se para ali e então afinal escolho
“ser” ou “não ser”
foi e será o melhor não responder
por querer demais aos três

Sábado, Maio 30

Enormíssimo Cronópio

Criaturinha verde que me amadurece o ser e que, úmida, faz secar a boca atônita de te reler, pois não te declamo, senão respiro. Com os teus poliédricos olhinhos de gato em penúria eu vagabundeio uma leitura opiácea do microcosmo que me contas fantástico, por mágica com barbas de negra mandala primaveril a mascararem quase dois metros de alta outra realidade, a mesma de Buenos Aires e Paris, com dentes feios e fomes aleatórias, famas elásticas, não importa... não se contentam em significar, Julio, que me dizes muito e é aqui em qualquer lugar, agora em qualquer tempo. Entre os teus e os meus cigarros, saio do hospício onde se usa encerrar nossos heróis poetas e minotauros, cujos sonhos tomados aos crepúsculos revolucionários examinam o bebop pugilístico de prosseguir a perseguir, ora em livros mesmo, ora em outras liberdades, nossas incontáveis solidões, mulheres e cidades. A presença que imagina a si mesma anda por aí, estritamente não profissional, em territórios violentamente doces, com suas armas secretas contra os vampiros multinacionais. Em todos os jogos o jogo sem fim com humor sem princípio, final de fogo onde anda a tua fala, voz grave sem solenidade, voz terna pela eternidade. Tu me sublinhas, caro amigo. Fui te visitar aí no cemitério lotado, casa tomada por ti, vigiado sempre por corvos que você (nuncamais) traduziu e que agora te traduzem, a lápide branca de casal sob pedrinhas, moedas escuras e pétalas cansadas, entre um sem número de papéis molhados pelo noturno céu da véspera, com um caleidoscópio de desenhos e outros textos para ti e/ou teus mesmos; então me deito um pouco contigo, che, meu velho mestre sem método, penúltimo dos titãs não-ortodoxos que fez algum sentido; e deitado vejo de olhos abertos o teu coração de pelúcia e em panorama o teu esqueleto mais livre do que o meu; e quando fecho os olhos, cobrindo de fosfenas minha vigília, anoto aquelas datas de teu nascimento e morte: aí penso na I Guerra e penso na Declaração de Caracas. Apenas o creio porque é mais fantástico, Cortázar. Tudo me parece uma irônica amarelinha imaginária, ou uma mera épica piada de mau gosto. E os tempos não são outros. Saio contigo da labiríntica necrópole para um não menos granítico café na esquina onde, marmóreos, nós tomamos dois dedos de prosa poética sobre os dois euros da conta. E... sim, sim, escrevo no computador e... verdade, irmão... dois Kirchners, primeira-dama e primeiro-senhor... seguro... Que te passa, compadre? Asma? Incredulidade? É que você já devia ter se dado conta de que, morrido um contista num ponto, diminuído fica ele do último conto. E o mundo cada vez mais tonto.

Quarta-feira, Maio 27

Nico & Tina

Olham para o cinzeiro na parede
O cigarro curto no número três
O cigarro longo no número seis
Um café para aumentar a sede

Intervalo do trabalho a dois
Espaço de fumantes
Combinam de se ver depois
Tempo de amantes

Fumar

Fumar é mais do que um vício
É um exercício cansado
Verbo demorado e difícil
Participado particípio
Eu fumo até por princípio
Início de precipício

Fumar ilude
Na não-virtude do não-ilícito
Decrepitude da juventude
Mais do que um estado de espírito
É um estado de saúde